A Leitora - Capítulo 1
Título: A Leitora
Autora: Marja
Gênero: Romance Histórico/ Fantasia
Duração: 34 capítulos
Classificação: haverá cenas hot
Resumo: Confira a prévia Aqui. Descrição dos personagens Aqui
Capítulo
1
Diana
percorreu o jardim com passos lentos. Ela queria guardar na memória cada
pequena lembrança. Cada pequeno nuance.
Cada pequena cor. Cada pequeno simbolismo e delicadeza.
Seus
olhos vagaram por sobre cada relevo, cada reclusa imagem. Seus ouvidos mantiveram-se
atentos para cada som e cada insignificância que para olhos e ouvidos leigos
não importariam.
Percorreu
o jardim passo a passo, a grama acariciava a sola dos pés e suas pegadas
marcavam a grama recentemente úmida da chuva.
Ela
não olhou para trás em nenhum momento, muito menos deu atenção a grama amassada
por seus passos, seguiu seu andar vagarosamente sem desvios. Não havia pressa.
Era sua rotina diária. Sua rotina de todas as manhãs.
Seu
andar a levou para o jardim.
O
jardim de flores cultivados caprichosamente pela Sra. Collins e que ficava no
fundo da propriedade. Andou entre as flores, passando por cada uma, analisando
as novas flores que desabrocharam, as que o sol castigou, as que a brisa
desfolhou.
Prestou
atenção na cor das folhagens, as amareladas, as esverdeadas, as envelhecidas e que
as perdiam a cor.
Passou
entre as plantas do jardim, sentindo na pele a carícia das flores, aspirou os
perfumes mistos.
Diana
não era tão atenta a ponto de sua mente lembrar cada perfume ligando-o ao nome
de cada flor. Por isso aspirou uma a uma enquanto andava. Seu olfato não era
tão bom quanto gostaria que fosse, então, prezava pela imagem e pela agilidade.
Seu olfato debilitado não merecia tanta atenção.
Diana
percorreu seu caminho sem grandes pensamentos. Apenas andando e volteando pelas
árvores e jardins.
Umas
duas horas mais tarde, percorrido todo o trajeto, Diana subiu as escadas na
parte de trás da casa. Eram doze degraus. Lânguida, sem pressa, subiu um a um
os degraus, sempre andando ao lado do corrimão sem, no entanto tocar sobre ele.
Entrou
na casa pela porta entreaberta. Com toda certeza Dolores havia esquecido a
porta aberta outra vez. Às vezes Diana se perguntava se era esquecimento ou uma
simples delicadeza daquela mulher que não a suportava.
Seria
difícil acreditar que Dolores pudesse dizer “Está aberta, saia. Está aberta,
entre. Eu me preocupei com você.”
O
leite, o pão, era sempre o alimento preparado por Dolores, mas não era
porque quisesse alimentá-la. Era por
conta de ordens e ordens não se mede, se cumpre!
Diana
seguiu pela cozinha sem prestar muita atenção aos outros. Ouviu o som das vozes
com certa indiferença. Sabia que como sempre
era o assunto deles, mas não se importou com o que diziam.
Não
lhe despertava interesse. Há muitos anos não lhe despertava atenção ouvir o que
outros como ela diziam.
Mais
precisamente a vinte e um anos não lhe era interessante ouvir o que diziam. Seus
assuntos não agregavam mais nada para sua nova vida.
Era
preocupante, mas era desse modo.
Diana
seguiu pelo corredor lateral que fazia volta em torno da sala. Uma sala oval, onde
pessoalmente gostava muito dos azulejos, da decoração, gostava muito das pinturas.
Sabia de cor de onde viera cada um dos quadros.
Primeiro,
por que o enfadonho Sr. Antônio gostava de contar a cada visitante, a cada nova
visita, a cada meia hora desta presente visita, recontando incansavelmente a
história de cada uma daquelas renomadas obras. E Diana era a única que ainda
prestava atenção aos seus discursos sobre arte.
Observou
calada a empregadinha que retirava o pó de sobre os móveis e armários. Ela
fazia seu trabalho com desdém, um desdém que chegava a irritar.
Pobre,
sem eira nem beira, sem família, sem berço e sem honra para barganhar e sem
grande beleza para valer-se, não agradecia o emprego honesto e o prato de
comida, a decência e a oportunidade de subir na vida.
Desdenhava
o pano que umedecia, desdenhava a parede que limpava, desdenhava o chão sob
seus pés e o teto sobre sua cabeça.
Diana
vira muito isso em sua vida: pessoas ingratas que não olham o que os fazem por
si. Pensam apenas no que gostaria que lhe fizessem ou ofertassem.
A
realidade nem sempre é fácil.
Por
conta disso, Diana seguiu sem prestar demasiada atenção. A muito tempo perdera
a capacidade de julgar os outros e não tinha a menor vontade de retomar esse
péssimo hábito.
Fez a volta na sala, até encontrar a escada
principal. Está sim, era um acessório soberano. Poderia muito bem subir pela escada
de trás, nos fundos, que era discreta, e escondida, de uso dos serviçais e dos
proprietários, quando na pressa de ir e vir.
Diana
gostava de subir pela principal. Fazia com que se sentisse uma princesa. Talvez
por conta de alguma memória antiga, onde fora uma princesa, mas isto, já não
lembrava.
Subia
os degraus como se fosse sempre à primeira vez. Ela sempre fazia isso.
Hoje
havia uma singular diferença. Os tapetes no alto da escada estavam sendo limpo
por isso o chão era liso e escorregadio e por um segundo Diana desejou apenas
brincar.
Brincar
e brincar, como uma criança brincando de escorregar pelo chão liso e encerado.
Mas para que isso? Era tão tolo!
Diana
seguiu sem caminho, sempre lenta. Não tinha pressa. Depois de um tempo a pressa
vai embora e quando a pressa vai embora fica apenas o que importa: que é o
vagar.
Vagar
tão lento quanto pensar. Se puder dar um passo a cada palavra pensada você
saberá que andou certo e que pensou certo. Tudo há seu tempo. Terá tempo de
voltar atrás. Terá tempo de correr se for necessário. E mais importante: poderá
parar a tempo de corrigir seus atos.
O
tempo de puxar o freio. Diana não sabia exatamente o que queria dizer esse
termo que sempre ouvia. ‘Puxar o freio’
Mas
o cocheiro do Sr.Antônio vivia repetindo. Tanto quando conduzia a carruagem,
como quando dirigia o veículo. Bem da verdade o pobre homem não era acostumado
a dirigir. Era uma inovação moderna, que o Sr.Antônio não abrira mão de ter.
Uma
surpresa vinda de alguém aparentemente tão antiquado e correto.
‘Puxe
o freio!” ou “Puxe os arreios!”, era o que Diana mais ouvia ao aventurar-se ao
lado do Sr.Antônio em passeios. O pobre motorista não nascera para a velocidade
e Diana acreditava que seu trabalho lhe era um transtorno.
Diana
não sabia o que queria dizer esses termos, pois não era experimentada a ponto
de dirigir os veículos modernos, algo que apenas as pessoas fazem quando necessitam
muito.
Diana
esperava um dia ter a oportunidade de viver isso. E de fato seu desejo vinha da
insistente empolgação do Sr.Antônio com tais aventuras.
Quem
sabe um dia Diana pudesse ver o freio ser puxado, e entender esse estranho alívio
de quem volta da morte.
Descobrir
o estranho encanto que há em parar em meio ao violento medo da colisão.
Na
segunda porta a direita do imenso corredor, Diana parou. Era aquela porta que
lhe interessava. A porta era conservada sempre entreaberta, por isso entrou.
Sua
presença não necessitava apresentação ou palavras.
Os
olhos de Laura a acompanharam. Sempre igual a toda as manhãs.
Diana
aproximou-se da janela, olhando a imagem de fora. A janela era um quadrado
perfeito, divido em vidros quadriculados, permitindo que visse o céu, mas era
um céu visto em quadrados. Era um céu distorcido da realidade.
Janela
rigidamente fechada, para que a brisa não encontrasse espaço para entrar. O
mesmo para o calor do sol, ou o frio da noite. Nem o bom, nem o ruim.
Através
do quadrado limitava a paisagem. E limitava também a vida e o sentir-se vivo. Era
triste, mas era assim.
No
parapeito da janela, Diana observava calada. Nunca era ela quem começava o diálogo.
Sempre esperava. Às vezes, pensou com carinho, ela sabia quando Laura começaria
a falar. Às vezes não.
Às
vezes Laura permaneceria quieta, silenciosa, aprendendo a pensar. Aprendendo a
falar no ritmo do pensamento, talvez.
Às
vezes Laura a surpreenderia com um dia inteiro de silêncio. Para no dia seguinte,
renovada as forças, retomar a conversa. E quando acontecesse, seu interesse era
voraz. Quase a cansaria demais com sua necessidade por palavras.
Diana
esperou um momento. Hoje era um daqueles raros dias em que o corado nas
bochechas de Laura indicava que seria um bom dia.
Tanto,
que não foi surpresa ouvir a voz mansa, baixa, cálida, um pouco rouca e talvez
a Sra. Dolores estivesse com a razão ao dizer que a brisa não lhe faria tão bem
a saúde quando a própria Laura gostaria de acreditar que fizesse.
-Como
está lá fora?
Era
sempre a pergunta. ‘Como está lá fora?’. Era sempre este o princípio da
conversa.
-Está
bonito. Não é um dia diferente dos demais - respondeu Diana – Já vi muitos
iguais.
-Conte-me.
Não tive oportunidade de vê-los. Não tanto quanto você – respondeu Laura com
uma pitadinha de arrogância.
Laura
sempre conservava na voz uma pitadinha de arrogância. Não era uma jovem arrogante, não era cínica,
mas conservava uma pitadinha de arrogância na voz, lá no fundo, como se ela
soubesse que todas as pessoas são iguais e não se conformasse com o tratamento
diferenciado e por vezes cruel.
Todos
iguais. Os que vêem o pátio. Os que não vêem. As que sentem a brisa, as que não
sentem. No fundo todas as pessoas são iguais, com suas limitações, com seu
universo particular.
Mesmo
as que voam. Mesmo as que andam.
Mesmo
as que caem.
-Eu
gostaria de pensar que é um dia diferente, Laura – respondeu Diana – Mas não é.
Vi tantos assim. Olhe você mesma, não consegue descrevê-lo? A paisagem de sempre, de todas as manhãs?
-Sim,
a paisagem de sempre, mas a cada quadrado do vidro a paisagem muda. Ontem havia
um galho a menos, hoje há um galho a mais surgindo diante da pouca imagem que
tenho do jardim. E eu não sei por que ele está ali. Ontem eu conseguia ver
nuvens de chuva e hoje o céu está azul, sem sinal de tempestades. Será que vai
chover? Você conseguiu saber, Diana? Se há alguma nuvem de chuva no céu?
-Quer
mesmo saber, Laura? Depois de tanto tempo, ainda quer saber?
-E
porque não iria querer saber? O que mais me sobra?
Laura
perguntou da cama. Estava com sempre deitada sobre os lençóis, o cobertor a
cobria até o peito. Estava imóvel, não porque precisasse, mas porque era mais
confortável.
Normalmente
não lhe doía tanto mover os braços por isso naquele momento afastava os cabelos
longos da face. Mover as pernas, os quadris e o tronco... Isso era outra
conversa. Ela preferia não fazê-lo para não sentir dor.
Um
dia sem dor, era um dia feliz.
Loura,
os cabelos muito clarinhos e que às vezes Diana se perguntava se eram tão
desbotados por serem assim, ou por nunca terem pego sol tempo suficiente para
se dourarem, agregando aspecto saudável as madeixas.
A
pele era reflexo dos cabelos, sempre assustadoramente pálida. Hoje com um leve
rosado, o que era um bom indício de que hoje poderia passar mais tempo
acordada. Seus olhos eram enormes pires de leite muito brancos com pupilas
verdes. Um castanho esverdeado que enganava quem visse.
Seu
nariz era comprido, o que era extremamente estranho, pois Laura nunca tivera a
oportunidade de pôr o nariz onde não fora chamada. Mesmo assim seu nariz era
longo, assim como seus lábios. Lábios longos. Seu sorriso enfeitava sua face de
bochecha a bochecha.
Laura
não sorria tanto, mas quando o fazia... A face alargava, as bochechas cresciam,
a testa desaparecia sob a franja, um sorriso com tantos dentes, com tanta
profundidade.
Pena
que eram muito raros os sorrisos de Laura.
-Eu
vi nuvens de chuva – disse Diana esquecendo os pensamentos sobre sorrisos. – No
horizonte, é preciso olhar ao longe, e subir em alguma árvore. Não vai chover
na cidade, talvez em outra região. Talvez pegue os viajantes na estrada. A
chuva está lá no alto, mas não vai cair hoje. E não aqui. O que é bom, o jardim
está bonito, com poucas folhas mortas. As flores estão abertas, acredito que o
peso da chuva derrubaria as pétalas. É possível que tenhamos mais um dia de
flores. Seria interessante. Torna o passeio mais bonito.
-E
o perfume? – Laura questionou.
Era
com certeza sua provocação preferida. ‘E o perfume?’. Era este um grande problema para Diana.
-Porque
insiste em perguntar sobre perfumes? Não gravo o perfume na mente. Não tenho essa
capacidade de me interessar pelo perfume. Os jasmins destoam, são petulantes e
seu forte cheiro agride meu olfato. Os demais passam despercebidos. O faro não
me é peculiar ou capaz. Prefiro outros sentidos. Olfato não me interessa.
-E se não lhe interessa não deve me
interessar também? – Perguntou Laura curiosa – o que não lhe é grato não pode
me agradar?
-É
claro que a agrada. Somos água e óleo. Nada que eu goste vai agradá-la. Nada
que você goste vai me agradar. É preciso negociação e boa vontade para conciliar
nossos gostos e desejos. É assim que funciona. Se quer mesmo saber, acho que
lhe importa sempre ser massacrada pela verdade. Doa a quem doer. A grama está verde e umedecida pelo orvalho
da noite. A terra não está seca. Igualmente estão as pétalas das flores e as
folhas das árvores. A brisa está um pouco fresca, tão agradável que eu poderia
andar por horas e horas. Não o faço por que desejo lhe fazer companhia. Mas
poderia. Poderia andar sem pensar na temperatura, no calor, ou na umidade do
ar. Está muito agradável para quem tem boa saúde. – Diana entristeceu a voz,
pois a face de Laura entristecia a cada palavra – vi cavalos ao longe, aquelas
tolas meninas da cidade intentando se casar e para isso fazendo longos passeios
a cavalo com seus pretendentes. Pobrezinhas, metade delas terminará a primavera
grávida e abandonada. Outra metade casando as pressas por dinheiro. E umas
poucas tantas felizes com o homem de sua vida, seu grande amor, até descobrir
que não há vida ou amor após o casamento!
-Por
isso nunca quis casar-se Diana? Sua ironia destinada ao amor de fato me
intriga. Na sua espécie não há amor?
-Claro
que há. Um amor diferente do que costuma estar descrito nos livros que tão
avidamente lê, Laura. E não fale da minha espécie quando eu mesma pouco sei de
mim.
-Não
fique triste, Diana – Laura apaziguou – deste modo me entristeço também. Não esqueça
Diana: Sua felicidade tem sido minha felicidade. Seus momentos de alegria tem sido
minha razão de sorrir. Se você sente mal, o que há de ser de mim que não posso
sair dessa cama? Fique sempre feliz ou ao menos finja para que eu me sinta confiante
em pedir-lhe que passeie pelos jardins e me conte o que vê. Se você estiver
triste que graça haverá em ouvi-la? Eu gosto de saber que o jardim está bonito
mesmo que eu não possa andar por ele. Faz-me bem saber que ao menos você pode
fazer isso por mim. Isso é uma forma de amor, não é? Amor que não se compra e
que não se mede por palavras. Amor que ultrapassa a barreira do corpo, da alma
e da saúde. – Laura baixou os olhos, escondendo a melancolia – Por favor, me
conte do amor, Diana. Do amor na sua espécie.
Era
uma conversa que nunca tiveram. Mas esse assunto ultimamente pairava na mente
de Laura.
-Já
amou alguma vez, Diana? – insistiu.
-Não.
– Diana não queria falar desses assuntos. Assuntos pesados. – Nunca amei. Acho
que estre tipo de amor não me interessaria, Laura. Um amor estranho para seu gosto.
Envolve mais o corpo do que a mente ou coração. Envolve mais os instintos. Tive
poucas oportunidades, muito raros momento de descontrole. Confesso envergonhada...
Que alguns meses... Não posso controlar os instintos e meu corpo domina. Mas
nunca o coração foi tocado. Às vezes tenho curiosidade de saber como funciona
este amor humano, este amor humano que vive falando em livros e músicas, estes
amores que o Sr.Antônio vive lendo nos livros. Um dia viverá um desses amores,
Laura. Não está ansiosa?
-Não
seja irônica, Diana. Não viverei um grande amor. Pouco viverei. Conto com o casamento
com o Sr.Françoar para conhecer este amor. Ele será um bom marido e eu serei
uma boa mulher até onde minha saúde permitir. Sei que não tenho muito a oferecer
a Françoar. Este, Diana, será o único amor que irei conhecer. – Por entre a tristeza
um olhar de malícia e molecagem surgiu e Diana preparou-se para a surpresa. Às vezes
Laura a surpreendia com sua mente sagaz, cheia de idéias – mas prometo deixá-la
ficar no quarto para espiar como se dá o ato entre duas pessoas. Que sane sua
curiosidade! Eu também tenho curiosidade. Não sei o que acontecerá de fato e em
minucias na noite de núpcias. Infelizmente nos livros do Sr.Antônio não contam
os detalhes. Eu suspeito que haja um livro ou outro mais picante. Mas ele não
me mostra e não quer que eu leia. Na verdade acho que essa iniciativa parte de
minha mãe que tem horrores a este assunto. Por isso ele não mostra. Opta sempre
por leituras fáceis, calmas e que me façam sorrir de alguma forma ou que me
faça sentir tristeza por razões adversas que me faça esquecer minha verdadeira
causa de tristeza. Mas eu prometo, Diana, no dia do meu casamento, consumarei a
lua de mel com privacidade e no dia seguinte, deixo que espie. De você não tenho vergonha ou ciúmes.
-E
porque teria? Sou bicho, Laura. Não há razão para ter vergonha do seu corpo.
Diana
pulou do parapeito da janela com graciosidade, e este pulo a levou diretamente
para o chão coberto por tapetes macios e caros. Regalias do Sr. Antônio, que
sempre mimava Laura. Do chão, pulou para
a cadeira, da cadeira para a mesinha e da mesinha para a cama.
Andou
sobre a roupa de cama com a sua graça de felino. Era gato, não era gente. Uma
gata de cor pêssego, às vezes amarelada, às vezes avermelhada. Hoje, Laura
diria ser um tom de cor pêssego.
Na
verdade Laura sempre enfeitava a realidade. Diana bem sabia. Seu pêlo era
amarelo. Simples assim. Sem graça
alguma. Diana confessava que estivera no
passado em corpos melhores. Já fora uma gata negra, elegante e soberana as
demais; já fora um felino malhado de aparência pacata. Até mesmo uma grande
gata. Um tigrezinho. Confessava que na época não sabia que era um tigre, pensou
com humor negro. Fora um susto grandioso ao descobrir que cresceria, e não
passaria despercebido, e que a cada centímetro crescia também seu voraz apetite
por carne. Que seria faminta e faminta a ponto de enlouquecer... E ter que se conformar
em outra vez trocar de corpo, muito antes do esperado.
Diana
confessava que lhe faltava coragem de ser um tigre.
Faltava-lhe a alma da voracidade e a
profundidade. Não era da sua natureza. De volta a um corpo pacato, Diana havia
finalmente chegado ao corpo em que vivia atualmente.
Tantos
e tantos anos passados, não se lembrava mais de sua terra. Uma vez há muito
tempo, ela lembrou.
Mas
as lembranças foram morrendo com o tempo. Certas coisas são inúteis de guardar
na mente quando se vive tanto e por tantos séculos.
Tantas
coisas tolas fazemos na vida, ou como ela se envergonhava, nada se faz na vida.
Tudo é vazio quando as lembranças não são marcantes.
Laura
estendeu a mão e acariciou o pêlo macio. Gostava de conversas com sua gata. Ninguém
jamais a entenderia mesmo que tentasse explicar, por isso, Laura não perdia seu
tempo tentando.
Seu
tempo e sua energia eram muito significativos. Na maioria das vezes, não tinha
nenhum dos dois.
Manteve-se
acariciando a gata que se estendeu sobre o lençol ronronando. Pobre Diana. Ela
se envergonhava, mas em alguns momentos era tão felina, tão simples, tão fácil
de ler. Sua intensidade ficava resguardada a algum ponto dentro do seu coração
porque por fora ronronava como um gatinho manso e domesticado.
-Não
ria de mim, Laura. Sabe que não posso controlar minha natureza.
-Sim
– respondeu Laura quase sorrindo – Por isso tenho uma tigela de leite a esperando.
Eu nunca a receberia em meu quarto sem lhe oferecer uma tigela de leite. Não
sou tão cruel assim. Sei o sacrifício que passa naquela cozinha. Sei que
Dolores não gosta de você. Sei também que os outros gatos a detestam.
-Que
cruel destino - disse-lhe Diana petulante e um pouco ressentida – Sua mãe não
precisava ter cinqüenta gatos! Ela poderia muito bem contentar-se com apenas
um.
-E
este um seria você Diana? – Laura perguntou sorrindo –Têm andando muito prática
nos últimos tempos, não? E mamãe não tem cinqüenta gatos. Trinta e oito é o número
exato!
Outra
vez Laura trazia na voz aquela pitadinha de arrogância e isso fez Diana sorrir
por dentro.
-Entenda
e aceite, Diana. Mamãe gosta de gatos. Faz parte de sua vida. Mamãe compensa a
infelicidade de um casamento sem amor, da falta de liberdade, da falta da saúde
da filha, de ter outra filha que não se importa com seus sentimentos ou com qualquer
outro ser da humanidade que não seja ela própria – os olhos de Laura brilharam
ao falar da irmã – Minha irmã, tão fútil com suas fitas e vestidos! Pobre mamãe
compensa seu sofrimento criando gatos. E não esqueça, graças a ela, você chegou
até mim.
-Sei
disso. Graças a sua mãe estou aqui. Houve outras de sua família. Muitas outras
meninas e mulheres em outras partes do mundo. É típico das jovens criarem e dar
amor aos gatos. – Diana contou muito
melancólica – mas você, Laura, eu não sei o que tem... Mas não posso
simplesmente ir embora.
-Mesmo
sabendo que o fim chega? – Perguntou Laura com a voz muito baixinha.
Ela
não gostava de chorar. A seu ver não havia porque chorar. O que a vida
resolveu, está correto. Sua saúde definhava e era um milagre que ainda
estivesse viva. Desenganada desde a
infância, Dr.Ernesto nem acreditava em tal milagre.
Quando
o chamavam no meio da noite, para acudir alguma crise na saúde de Laura, o
homem vinha munido de sua maleta de médico e de um padre. Há muito tempo o
médico perdera o pudor e deixara de aparentar aguardar a cura de sua paciente.
Estava convicto de sua morte.
Laura
sofria de tantos problemas. Coração fraco, pulmões, estômago, rins, músculos,
ossos. Sempre que julgava estar melhorando alguma outra parte do seu corpo era
afetada e a doença a mantinha presa a cama.
Laura
preferia não andar ou sair sozinha da cama. Era muito menos doloroso manter-se
presa a um quarto do que suportar as inúmeras fraturas ósseas a qual se
submetia ao menor acidente. Coisas simples que para as pessoas são rotina, poderia
matá-la.
A
vida pode ser cruel quando a saúde não é boa.
Laura
descobriu isso da pior maneira. Acalentava ainda algumas esperanças. Um milagre
sempre é possível. Mesmo que o milagre de sua vida durasse pouco.
Estava
se preparando para o grande evento, pois em uma semana noivaria. Era um noivado
e casamento simbólico, todos sabiam disso, não era nem de longe um casamento
verdadeiro.
Sr.
Françoar casaria com uma moça de boa família sabendo que ficaria viúvo em pouco
tempo. Sabendo que não teria filhos e que sua esposa não seria uma companhia
presente. Ele trocava tudo, principalmente a liberdade, por uma boa colocação
dentro da família Collins.
Laura
não era boba e sabia bem disso. Era o mais perto do amor que chegaria. Sua mãe
apoiava o casamento, aliviada de casar a filha mais velha; seu pai hesitava em
dúvida sobre a idéia ser boa ou não dada à fragilidade da saúde da filha. Apesar de tudo, ambos
pareciam contentes em saber que Laura se casaria antes de morrer.
O
Sr.Antonio era contra. Negava-se até mesmo a falar do assunto, pois achava uma
tolice completa subjugar uma vida tão curta e impor tão pouca felicidade.
No
entanto, Laura queria se casar e era isso que de fato importava.
Francoar
era bonito, charmoso, culto, vivido e viajado. Sabia falar quando queria e
sabia se calar quando precisava. Laura ficaria feliz em ser sua esposa mesmo
que por pouco tempo.
Uma
relação calma, sem atropelos da paixão.
Diana
por sua vez, se corroía por dentro. Às vezes erguia as patas, mostrando as
unhas ao ver Francoar. O pêlo arrepiava.
Diana não sobrevivia a sua presença. Simplesmente não suportava sua presença.
Uma irritação, um sentimento profundo de rejeição.
Não
gostava do noivo de Laura, e não queria lhe contar a razão. Bem possível que
não houvesse razão e fosse apenas implicância. E isso parecia ser o bastante
para Diana deixar claro sua insatisfação com seu noivado!
Com
Diana era assim, gostar ou não gostar, sem meio termo. Contrário de Laura que
tudo ama e tudo gosta, e sempre é inclinada a uma segunda opinião quando algo a
desagrada.
Para
Laura, tudo na vida tem um lado ruim, mas às vezes o lado bom compensa.
-O
casamento com Françoar será um começo em minha breve história e como você não
posso lamentar, Diana. – Laura tentou apaziguar
a rincha entre elas, e não era a primeira vez quer tentava um desfecho
favorável para esse assunto.
-Acredite,
Laura, prefiro não conhecer o amor humano a ter que ver o Sr.Françoar nu – Diana
disse amarga.
O
riso de Laura ecoou pelo quarto. Mesmo sem a intenção, era muito bom ouvir
Laura rir. Era muito bom.
-Ao
contrário do Sr.Antônio. Confesso, Laura, ter um prazer peculiar ao vê-lo
trocar de roupas. Ele me permite ficar em seu quarto. Parece achar engraçado
que a gata de sua melhor amiga fique tantas horas em seu quarto. Eu poderia lhe
contar sobre ele e sobre sua intimidade. Mas você nunca quer ouvir. Parece que
tem medo.
-Não
tenho medo, Diana! Acho uma invasão de privacidade sem precedentes ouvir o que
diz sobre ele. Antônio não sabe quem você é de fato. Tenho medo sim, mas é de
ficar constrangida na presença dele após saber sua intimidade. O que ele faz
quando sozinho.
-Ele
não faz muitas coisas, Laura. É um homem simples. – Diana sorria por dentro, e Laura reconhecia
o som disso em sua voz. Na voz que ecoava em sua mente. – normalmente ele bebe
uma taça de vinho ou um cálice de licor. Depois escolhe um livro. Acredita que
todas as noites Antônio separa um livro para ler com você? É prudente e passa
os olhos pelas páginas, analisa se deve ler ou não, se vale a pena. Se você vai
gostar ou não. Acho que ele gasta uma hora por dia fazendo isso. Terminado, ele
se troca para dormir. Eu gosto de vê-lo
se trocar. – algo em sua voz soou
apaixonado – eu gosto muito, muito mesmo de vê-lo se trocar... Antônio se
deita, às vezes sozinho, as vezes acompanhado.
-Diana!
Já viu o amor humano! Está apenas brincando comigo! – Laura disse
petulante. – e eu disposta a dividir
minha intimidade para que visse como é! Porque nunca me contou?
-Porque
eu nunca fico para ver o ato entre Antônio e suas... Companheiras de cama. Não
gosto de ver mulheres encostarem-se a Antônio. Sabe tão bem quanto eu, Laura
que tenho certa possessividade por você e por Antônio. A meu ver deveria
casar-se com ele! O mais rápido possível! Enquanto ainda lhe resta saúde para
ser uma destas mulheres que se deitam com ele!
-Não
poderia me casar com o Sr.Antônio – Laura meditou – ele nunca me pediu em
casamento! Além disso, é amigo do meu pai, tem dez anos a mais que eu e me vê
como uma menina. Como uma criança! Por favor, Diana! Ele lê para mim! Muitas
vezes acho que lê esperando que eu adormeça como faria com uma criança pequena.
Porque me pediria em casamento?
-Porque
outra razão um homem com sua vivencia e experiência perderia seu tempo lendo
para uma menina que vai morrer?
-Não
fale assim – pediu Laura – não sou a menina que vai morrer.
-Sim,
você é, Laura. Enquanto não aceitar a
verdade da minha proposta, da minha oferta, do meu pedido, você é a minha que
vai morrer.
Um
pequeno silêncio caiu sobre as duas. Diana como sempre esperou por Laura. Por
sua vontade de falar.
-Eu
não posso fazer isso. Seria trair o Sr.Françoar. Seria trair a mim mesma. Trair
o que sou. Sou humana. Você não é. Não sabe como é ser frágil e sem controle de
sua própria existência. Como poderia dividir meu corpo com você?
-Eu
não sei, Laura. A única coisa que sei é que não posso vê-la morrer.
Diana
levantou, apoiou-se nas patas, virou as costas e foi embora.
A
cauda amarela balançou no ar. Cauda baixa, não estava feliz, e sim triste.
Estava fugindo da conversa. Ela não disse nada, tão pouco saiu do quarto.
A
amizade entre as duas não premiria que virasse as costas e fosse embora. Não premiria
que deixasse Laura sofrendo sozinha dentro de um quarto, sem companhia, privada
de tudo e de todos.
Diana
enrolou-se num canto sobre o tapete, virou sua face para a parede, e ficou
quieta.
Na
cama, Laura fitou a janela. O mundo através de quadrados de vidro.
Se
ao menos estivesse chovendo haveria movimento.
E
se ao menos houvesse coragem Laura viveria mais.
Uma
vida longa. Uma vida dividida em duas.
Poderia
aceitar tal absurdo? Arriscar sua pouca vida restante, seu coração e seu juízo por um pouco mais de vida?
Autora:
Este capítulo 1 foi divulgado antes do lançamento como uma amostra do que
pretendo publicar em março deste ano! Espero que tenham gostado e que venham
conferir o lançamento em março!
Abraços.































6 comentários:
AMEI MARJA E BASTANTE ANSIOSA PARA A ESTORIA COMEÇAR E ADOREI ESSA GATA, POIS EU ADORO GATOS, MAS COMO EU AINDA MORO COM A MINHA MÃE EU NÃO POSSO CRIA-LOS.
MIL BEIJOS
IRIS
Que bom que gostou, Iris!
Estou trabalhando nessa história para março, durante minha folga.
Adorei a Diana, sempre tive gatos e sou louca por elesm então é algo que estou amando escrever!
Beijos e te espero aqui em março para ler A Leitora!
Esperando ansiosa pelo lançamento!
Bjo
Ana
Ana, lanço em março. Estou ansiosa para começar a postar regularmente! Bjs
Surpreendente. Tô louca pra ler a historia o primeiro capitulo foi sensacional *-* ameii
Oi, Escritora Sonhadora!
Estou preparando esse livro para março! Daqui a pouco tá disponível para leitura no blog! Bjs
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